sexta-feira, 26 de junho de 2026

GILGAMESH - Another Fine Tune You've Got Me Into (1978)




Gilgamesh claramente pode ser vista como uma banda de jazz rock ou fusion. Por fazer parte da Canterbury Scene (movimento característico das bandas da região de Cantuária, Inglaterra), está numa classificação especial e meio indefinida, flutua entre estes e o rock progressivo.

A banda tinha vários integrantes muito talentosos, que foram mudando. No contexto deste álbum, sendo a sua figura central o tecladista Alan Gowen, temos o guitarrista Phil Lee, o baterista Trevor Tomkins e o aclamado baixista ex-Soft Machine Hugh Hopper.


Alan Gowen


Alan Gowen não era apenas a figura central, mas a alma da banda. Conduziu e deu identidade ao som com seus teclados, originando um trabalho polido, leve e extremamente confortável de ouvir, com timbres macios e uma sensação flutuante. Ouvi-lo é como estar deitado na grama tomando sol num lugar distante de tudo.

Se me pedissem pra definir esse álbum com uma palavra, seria: "Suave". Além do domínio dos teclados, que imprimem sensações diversas, de estar flutuando fora do corpo, destaco também a guitarra, que às vezes entra em uníssono com o teclado e o baixo, e produz uma "mini sinfonia". A bateria parece ser tocada com uma delicadeza quase ao jazz, como se estivessem sendo tocadas com escovas em vez de baquetas. "Foel'd Again" penúltima faixa, parece ser a parte desconfiada e sombria do álbum. "Waiting", faixa três, entra como a parte acústica, tocada no violão, e invoca algo entre contemplação e tristeza. "Underwater Song" te faz viajar pra outra galáxia. Muitas das músicas parecem ter uma aura, uma atmosfera realmente paradisíaca, principalmente as do lado A do disco.

Harmonia, clima e delicadeza. Mesmo sendo um álbum de fusion, gênero que tem longos solos e muitas mudanças de ritmo na estrutura de cada música, e contando com músicos de extrema habilidade, não há disputa de quem toca mais "difícil". A alma da música, sua atmosfera e o seu feeling, são priorizados. Enquanto o álbum anterior, auto-intitulado Gilgamesh, explorava mais estruturas divergentes do jazz e tinha um lado mais técnico, Another Fine Tune é muito menos complexo, e foi rotulado como mais "acessível". Porém, não há como chamá-lo de sem personalidade, pois é algo bastante singular no meio do fusion.

Another Fine Tune You've Got Me Into foi um registro de uma banda que já estava perto de seu fim. Alan Gowen, depois de dar um fim na banda em 1975, havia formado, com Dave Stewart (Egg), o National Health, que inicialmente também tinha Phil Lee na sua formação. Ao sair em 1976, reativou o Gilgamesh, lançando esse álbum, que seria o último com a banda. Último porque, infelizmente, ele veio a falecer tragicamente muito jovem, aos 33 anos em 1981, vítima da leucemia.

Ele partiu, e deixou um álbum divino pra nos lembrarmos dele. Um álbum de muitas sensações boas. Um álbum que, pra mim, acabou se tornando o legado de Alan Gowen. É assim que vejo o álbum que fecha a discografia do Gilgamesh.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

BRAINTICKET - Cottonwoodhill (1971)




Brainticket foi uma banda de vanguarda liderada pelo multi-instrumentista belga Joel Vandroogenbroeck. Fazia parte da cena Krautrock, cena musical européia que buscava romper com as estruturas tradicionais do rock britânico e americano. Embora faça parte de uma cena com maioria alemã, seus integrantes eram de nacionalidades diversas da Europa, e a banda tinha sua base na Suiça.

Eles produziram 3 álbuns seminais e marcantes no começo dos anos 70, dentre eles, Cottonwoodhill. Seu debut, lançado em 1971, é uma mistura de guitarras cortantes, repetições hipnotizantes e uma seleção de instrumentos incomuns.

Já na primeira impressão, ao ver a capa, podemos perceber que aqui a coisa é mais que psicodélica. Uma mulher com o cérebro exposto sendo engolida por um redemoinho de cores, enquanto seu cérebro parece ser uma ponte de ligação com alguma outra dimensão — um conceito visual que seria desenvolvido ainda mais no próximo disco. Totalmente insano!

Chama a atenção a incomum narração desesperada de Dawn Muir na suíte que dá nome à banda, que emerge ao longo do álbum como uma presença quase alucinatória, transmitindo sensações que vão da tensão à excitação. A atmosfera do álbum, que vai ficando cada vez mais densa com o tempo, é um tanto pesada e caótica, sendo o desespero da vocalista a cereja do bolo.



Joel Vandroogenbroeck


"Black Sand", a faixa mais conhecida da banda, ocupa o lado A junto com "Places of Light" e a primeira parte da suíte contínua, "Brainticket Part I". A divisão entre esta última e a "Parte I (Conclusion)" ocorre por uma limitação do vinil na época: ela não caberia inteira no mesmo lado. Nas duas primeiras faixas sobressaem os vocais distorcidos feitos com artifícios eletrônicos e o teclado ecoante e insistente de Joel, e mergulha em um ciclo contínuo de ritmo e bizarras colagens sonoras de fundo.
No lado B temos a continuação de "Brainticket Part I", e "Brainticket Part II". Aqui temos a parte mais esquizofrênica e viajante do álbum, com barulhos de tráfego, pratos quebrando, macacos, orquestra, etc, com direito ainda a uma voz aterrorizante falando "Brainticket" até que pareça mesmo um apocalipse.

A repetição do mesmo tema, dos mesmos riffs e da mesma estrutura entre bateria, baixo e órgão sendo estendidos até o infinito, é algo diferente do jazz, onde a repetição muitas vezes serve como base das  improvisações e interação entre os músicos. Aqui, a repetição parece esmagar o ouvinte com sua insistência. É como usar um jeans velho até ficar acabado, mas nesse caso, ele quer acabar com a sua mente! A suíte inteira é uma excelência, feita pra ser ouvida em imersão e deixar o ouvinte atônito ou até desorientado. Um transe brilhante pra deitar, ouvir, "fritar" seu cérebro e nunca mais ser o mesmo.

O álbum causou um grande impacto na época, pois em 1971 chegava a extremos muito distantes do rock convencional. Sua capacidade de "esmagar a música ao avesso" pode ser comparada ao impacto do Black Sabbath ao fazer nascer o heavy metal. Não à toa, a própria gravadora "vendia" a banda como algo que "fazia mal" se fosse ouvido muitas vezes, o que teve efeito inverso e ajudou na sua reputação de obra maldita. O Brainticket parece ter levado sua proposta ao limite, subvertendo o rock ainda mais que o próprio krautrock em geral (será possivel?). A audição deixa de ser uma experiência musical isolada e se torna algo desconfortável, bizarro e amaldiçoado.

Esse trabalho foi uma das coisas mais desconcertantes que já ouvi, mesmo levando em consideração a cena Krautrock, que é uma loucura auditiva. Altamente denso e enfeitiçante! Precisei de algumas audições para absorver e ter uma ideia do disco como um todo.  Caótico, agressivo e hipnótico, deverá agradar mais os fãs de psicodélico que os ouvintes de rock progressivo tradicional.

terça-feira, 23 de junho de 2026

NEKTAR - Remember The Future (1973)


Com este álbum, a banda progressiva Nektar alcançou o seu auge nos anos 70.


O Nektar é uma daquelas bandas que possuem estilo musical característico próprio. Eles, apesar de serem homens ingleses, estavam na época na Alemanha, e lá se conheceram e a formaram (1969). Por estarem lá, foram praticamente ignorados pela mídia britânica, mas tiveram sucesso nos EUA de forma surpreendente. Apesar de ser classificada como uma banda progressiva, procurou adicionar em seu som influências variadas (incluindo o som krautrock, som característico do rock do país, que estava em alta na Alemanha naquela época) e fazer suas músicas com uma mistura única de progressivo e psicodélico. É frequentemente citado como uma das pérolas perdidas do prog, pois nunca alcançou o mesmo reconhecimento que outros gigantes do rock progressivo de primeiro escalão.




Sendo o seu trabalho de maior sucesso tanto de crítica quanto de vendas, alcançando a 19ª posição da parada de álbuns da Billboard 200 (EUA), Remember The Future (1973) é um disco conceitual conciso, com uma suíte contínua de duas partes de cerca de 20 minutos. Se parecem mesmo com uma única música, onde os temas se ligam naturalmente um ao outro e voltam algumas vezes. Com uma crítica social à frente de seu tempo, explora o tema da preservação ambiental de uma forma um tanto quanto criativa: um extraterrestre revela a uma criança cega o perigo de não cuidar do seu planeta.

Esse extraterrestre, chamado Bluebird, tentava se comunicar com outros seres humanos, mas era ignorado por todos, menos pelo menino cego, que passou a ver o mundo através das ondas telepáticas que o extraterrestre transmitiu a ele. A escolha da criança cega para a alegoria foi certeira e irônica, deixando explícita a ideia de que os seres humanos comuns não tinham sensibilidade e responsabilidade suficiente para captar o que o Bluebird queria avisar. Na última seção da parte 2, fica uma questão aberta, com uma sensação de esperança sobre o futuro, não tendo uma resolução definida do problema que aparece na história. Com certeza uma viagem altamente imersiva, reforçada pela experiência visual que o encarte do disco, com arte de Helmut Wenske, proporciona.


Contracapa do disco


Além da letra e história um tanto quanto exótica, sua construção musical é pouco convencional. Através de uma atmosfera leve, o disco alterna entre partes calmas e outras mais agitadas, e tem um som mais dançante e fácil de absorver, com melodias que fixam mesmo em meio de tantas mudanças de clima e ritmo (diferente dos álbuns pomposos e clássicos das bandas tradicionais de prog). Usando camadas de voz em coro, apresenta teclados espaciais e uma guitarra melódica, transita desde o space rock e psicodélico até influências de funk e soul, sendo muito difícil encontrar algo parecido dentro do gênero.

Este disco é simplesmente uma obra-prima e me senti muito impressionado com ele desde a primeira vez que ouvi, e ainda ouço sem enjoar mesmo depois de centenas de vezes. Apesar de alguns críticos dizerem que ele é um pouco repetitivo ou até criticar o balanço funk, essas críticas não diminuem o impacto e personalidade do álbum, nem a genialidade da banda ao concebê-lo. Recomendo para todos os fãs de progressivo em geral, em especial os que gostam de algo mais dançante e não tradicional, os que curtem uma abordagem sci-fi e temas mais psicodélicos, assim como aqueles que gostam de space rock.