quarta-feira, 24 de junho de 2026

BRAINTICKET - Cottonwoodhill (1971)




Brainticket foi uma banda de vanguarda liderada pelo multi-instrumentista belga Joel Vandroogenbroeck. Fazia parte da cena Krautrock, cena musical européia que buscava romper com as estruturas tradicionais do rock britânico e americano. Embora faça parte de uma cena com maioria alemã, seus integrantes eram de nacionalidades diversas da Europa, e a banda tinha sua base na Suiça.

Eles produziram 3 álbuns seminais e marcantes no começo dos anos 70, dentre eles, Cottonwoodhill. Seu debut, lançado em 1971, é uma mistura de guitarras cortantes, repetições hipnotizantes e uma seleção de instrumentos incomuns.

Já na primeira impressão, ao ver a capa, podemos perceber que aqui a coisa é mais que psicodélica. Uma mulher com o cérebro exposto sendo engolida por um redemoinho de cores, enquanto seu cérebro parece ser uma ponte de ligação com alguma outra dimensão — um conceito visual que seria desenvolvido ainda mais no próximo disco. Totalmente insano!

Chama a atenção a incomum narração desesperada de Dawn Muir na suíte que dá nome à banda, que emerge ao longo do álbum como uma presença quase alucinatória, transmitindo sensações que vão da tensão à excitação. A atmosfera do álbum, que vai ficando cada vez mais densa com o tempo, é um tanto pesada e caótica, sendo o desespero da vocalista a cereja do bolo.



Joel Vandroogenbroeck


"Black Sand", a faixa mais conhecida da banda, ocupa o lado A junto com "Places of Light" e a primeira parte da suíte contínua, "Brainticket Part I". A divisão entre esta última e a "Parte I (Conclusion)" ocorre por uma limitação do vinil na época: ela não caberia inteira no mesmo lado. Nas duas primeiras faixas sobressaem os vocais distorcidos feitos com artifícios eletrônicos e o teclado ecoante e insistente de Joel, e mergulha em um ciclo contínuo de ritmo e bizarras colagens sonoras de fundo.
No lado B temos a continuação de "Brainticket Part I", e "Brainticket Part II". Aqui temos a parte mais esquizofrênica e viajante do álbum, com barulhos de tráfego, pratos quebrando, macacos, orquestra, etc, com direito ainda a uma voz aterrorizante falando "Brainticket" até que pareça mesmo um apocalipse.

A repetição do mesmo tema, dos mesmos riffs e da mesma estrutura entre bateria, baixo e órgão sendo estendidos até o infinito, é algo diferente do jazz, onde a repetição muitas vezes serve como base das  improvisações e interação entre os músicos. Aqui, a repetição parece esmagar o ouvinte com sua insistência. É como usar um jeans velho até ficar acabado, mas nesse caso, ele quer acabar com a sua mente! A suíte inteira é uma excelência, feita pra ser ouvida em imersão e deixar o ouvinte atônito ou até desorientado. Um transe brilhante pra deitar, ouvir, "fritar" seu cérebro e nunca mais ser o mesmo.

O álbum causou um grande impacto na época, pois em 1971 chegava a extremos muito distantes do rock convencional. Sua capacidade de "esmagar a música ao avesso" pode ser comparada ao impacto do Black Sabbath ao fazer nascer o heavy metal. Não à toa, a própria gravadora "vendia" a banda como algo que "fazia mal" se fosse ouvido muitas vezes, o que teve efeito inverso e ajudou na sua reputação de obra maldita. O Brainticket parece ter levado sua proposta ao limite, subvertendo o rock ainda mais que o próprio krautrock em geral (será possivel?). A audição deixa de ser uma experiência musical isolada e se torna algo desconfortável, bizarro e amaldiçoado.

Esse trabalho foi uma das coisas mais desconcertantes que já ouvi, mesmo levando em consideração a cena Krautrock, que é uma loucura auditiva. Altamente denso e enfeitiçante! Precisei de algumas audições para absorver e ter uma ideia do disco como um todo.  Caótico, agressivo e hipnótico, deverá agradar mais os fãs de psicodélico que os ouvintes de rock progressivo tradicional.

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